Nós reconhecemos o fato que o proprietário camponês é, de certa forma, um obstáculo para a difusão de ideias socialistas, mas definitivamente não é uma fortaleza capitalista. Dois dos países conhecidos por terem proprietários camponeses, e portanto a salvo do socialismo, são justamente os países onde o socialismo é mais forte, a ver, França e Alemanha.
Na Alemanha o partido socialista tem mais poder eleitoral do que qualquer outro partido no estado, levando mais de dois milhões e duzentos e cinquenta mil votos, e na França, somos informados na autoridade do órgão clerical, o Gaulois, que o partido socialista foi o único partido que saiu da última eleição geral naquele país mais forte e mais esperançoso do que entrou. Na verdade, a propriedade camponesa é muito atrasada na Irlanda agora para ser uma barreira efetiva contra a difusão de princípios socialistas. Nós não precisamos lutar contra a propriedade camponesa, nós só precisamos assistir o desenvolvimento da empresa capitalista para ver o sistema de pequenas fazendas ser esmagado pela competição com as grandes fazendas e com o cultivo científico da América e da Austrália. Os preços da produção agrícola têm caído pelos últimos vinte e cinco anos, estão caindo agora, e vão continuar a cair ainda mais no futuro, e enquanto eles caem o proprietário camponês vê sua margem de lucro desaparecer e se encontra cada vez mais perto da falência. Cada nova aplicação da ciência à agricultura, cada barateamento do trânsito trazido pelo desenvolvimento do comércio transatlântico, tudo, em resumo, que aumenta a facilidade de troca, tende a baratear o produto agrícola e deixar uma margem de lucro decadente para o cultivador. O sistema de posseiros está rapidamente se tornando uma impossibilidade econômica na Irlanda, e a propriedade camponesa em si de nenhuma forma dá ao pequeno fazendeiro uma saída da vida de trabalho constante e fome que é a sua hoje.
Mas o princípio do socialismo garante essa saída e ao mesmo tempo concorre para ambas suas aspirações sociais e políticas. Quando a agricultura deixa de ser uma empresa privada, quando uma nação livre organiza a produção dos seus próprios alimentos como uma função pública, e confia a administração da função para a população agrícola, sob diretorias populares eleitas pela própria, então o "agudo individualismo do camponês irlandês" encontrará sua expressão na vigília constante do gado comum e na supervisão do trabalho um do outro, e formará a melhor segurança contra o desperdício, e o melhor incentivo para trabalho honesto. Quando a terra é propriedade do povo no sentido amplo (todo o povo seja da cidade ou do campo), então toda a ajuda fornecida pela ciência à agricultura, mas que são inacessíveis para o camponês empobrecido, será utilizada pelos administradores nacionais e colocadas a serviço dos cultivadores do solo. O mesmo astuto sentido que inspirou os fazendeiros irlandeses a apreciar as vantagens da cooperação agrícola para lacticínios e bancos, com apenas suas economias para financiar a empresa, também os levará a apreciar as vantagens que podem ser derivadas da cooperação em escala nacional com todos os recursos da nação para equipá-lo. E tal cooperação aplicada à indústria assim como à terra é a ideia básica da futura república socialista.