Empurrões Locais

James Connolly

1898


Publicação: Workers' Republic, 3 de setembro de 1898.

Republicação: James Connolly: Lost Writings, (ed. Aindrias Ó Cathasaigh), Pluto Press, 1997.

Tradução e HMTL: Guilherme Corona.

Creative Commons BY-SA 4.0


O maldito compositor teve seu turno na última semana. Fosse entusiasmo revolucionário ou distúrbio realista que pertubou seu cérebro não sabemos, mas sabemos que as páginas 3 e 7 e parte da página 6 da nossa última edição apresentaram aos leitores uma nova espécie de gramática e ortografia definitivamente desconhecida nos escritos deste jornal.

A ortografia era tão vil quanto os princípios de um escriba mercenário de um jornal Unionista ou Autogovernista, e a gramática era tão duvidosa quanto o patriotismo de um político.

Nós fomos assegurados pela impressão que precauções foram feitas para prevenir a recorrência de tais erros. Esperamos que seja assim. O maldito capaz de tal atrocidade da qual reclamamos deveria ter suas mãos e pés amarrados e ser atirado entre as bestas selvagens - na Câmara Municipal.

O United Ireland, que ainda se arrasta na sua dolorosa carreira, presumidamente por meio de doações imploradas pelos padres do país, contesta nossa exposição da traição praticada por certas estrelas da Executiva de '98, com relação a discursos e brindes.

Ele nos pergunta se não podemos "reconhecer a distinção entre os homens que ostentosamente brindam, o que um Nacionalista não pode se dignar, e a pessoa que, apesar de presente no brinde, não bebe, mas o trata com calma indiferença".

Quão belamente essa frase é escrita. A suggestio falsi nunca foi tão sagazmente introduzida. O Sr. Harrington não tenta provar que as pessoas referidas não beberam ao brinde realista, mas ele gentilmente sugere a eles uma maneira pela qual eles podem escapar da censura que eles ricamente merecem.

Podemos imaginar esses cavalheiros assim que lerem o parágrafo no United Ireland imediatamente entoando, "Sim, é isso, nós lá estávamos, é claro, mas não brindamos, tratamos o brinde com indiferença."

Mas engoliram a bebida com alegria.

Agora para provar o absurdo dessa desculpa tratemos de um caso paralelo. Suponhamos que em cada uma das ocasiões referidas, a ver, o Banquete de Imprensa em Malahide e o Banquete do Congresso de Saúde em Dublin, os participantes colocassem na lista de brindes, Uma Repúbica Irlandesa; os realistas presentes sentariam em silêncio e permitiriam que seus nomes saíssem nos jornais como participantes da ocasião?

Se eles tivessem, ficariam os seus jornais em silêncio sobre o ocorrido como os nossos trastes autogovernistas fizeram?

É demais esperar que nossos políticos (supostamente) nacionalistas pelo menos sejam tão consistentes em suas ações públicas quanto os unionistas a quem eles pretendem se opor?

O uivo emitido por todos aqueles jornalistas de classe-média quando qualquer um dos seus é exposto, e suas pequenas traições expostas à luz do dia, não trai uma consciência inquieta?

Mas o United Ireland quer que o Workers' Republic seja mais imparcial, certamente. Ele questiona sobre Alderman Pile que, "em um jantar recentemente não só brindou à saúde da Rainha mas propôs ele mesmo o brinde e se encheu de alegria quando viu seus convidados o honrando"?

Bom, nem em nossos sonhos mais loucos consideramos Alderman Pile como um nacionalista. Ele deve sua posição na Corporação de Dublin ao fato que esse órgão é eleito em um sufrágio restrito. Ele é um representante adequado da classe-média que o elegeu.

Como você, Tim, meu querido menino, ele não foi, nem, talvez, seria eleito para aquele órgão pelo voto dos trabalhadores.

Mas, o United Ireland continua, "Alderman Pile foi, alguns dias antes da sua performance realista, cooptado para o Comitê Wolfe Tone."

Lamentamos, mas não estamos surpresos. O Comitê Wolfe Tone é um filho da Executiva de '98, que era plenamente honesta e patriótica na sua concepção, mas que agora está dominada e controlada pelos membros saídos da United Irishmen Centennial Association do Sr. Harrington.

É uma pena que o Comitê Wolfe Tone coopte alguns homens que propõem e outros homens que bebem a brindes realistas, mas depois de engolir o ninho de manipuladores do Sr. Harrington, deve ser fácil assimilar um Alderman comum.

Por que insistimos em falar tão abertamente destes assuntos? Porque há agora uma onda realista na Irlanda. Lordes Prefeitos autogovernistas apertando as mãos de Lordes Tenentes tories, editores autogovernistas fazendo brindes realistas hoje e escrevendo "artigos patritóticos" amanhã, Corporações Autogovernistas elegendo Lordes Prefeitos tory, a conquista da Irlanda sendo finalmente aceita e ratificada pelos seus filhos.

Como disse Darby the Blast na novela de Lever, Tom Burke of Ours, "Malditos sejam os nobres, porque os nobres sempre traíram e trairão."

Desde que nossos políticos autogovernistas foram graciosamente permitidos a se associar com Lordes e Condes na agitação das Relações Financeiras, toda a virilidade e agressividade saiu da nossa vida pública, e nossos políticos agora tem medo de expressar uma única sentença que possa não agradar seus novos aliados.

Se esta reação realista deve ser parada e a maré da opinião pública ser dirigida em uma direção mais saudável, precisamos de discursos e ações fortes e vigorosos, tanto em público quanto no privado.

Então dizemos: abaixo a liderança da classe-média, que significa compromisso da classe-média, enganação da classe-média, servidão da classe-média, traição da classe-média. Abram alas para a mão forte e a mente clara do Trabalho.

Podemos assegurar nossos amigos que não há traço de sentimentos pessoais em nossa atitude com os políticos da classe-média e seus escribas mercenários.

Se nutrimos qualquer outro sentimento em relação a eles além de um desdém divertido deve ser aquele sentimento que anima o naturalista quando observa alguma estranha bizarrice da natureza - apenas recentemente capturada e ainda não classificada.

As "bizarrices" que lotam a política irlandesa hoje são em nossa opinião o resultado da estupidez de tantos dos nossos compatriotas em insitir em uma "plataforma ampla".

Eles não serão exclusivos, nos dizem, e abrem suas fileiras para todos aqueles que queiram entrar, sem fazer perguntas. Suas organizações são tocadas pelos mesmos princípios que o circo de Barnum. Pague a entrada e você pode comandar o show.

Como resultado eles conseguem o que querem, uma "plataforma ampla", tão ampla de fato que não se pode descobrir onde ela começa ou acaba.

De nossa parte somos por uma plataforma estreita, uma plataforma tão estreita que não haverá lugar para qualquer um que não seja um inimigo decidido da tirania colocar seus pés.

E ainda ampla o bastante para todo homem honesto. Eh, Tim.

Agora para dar o acabamento.

"Continue, profundo e escuro Oceano azul, continue." Assim cantou o poeta em seu clima mais condescendente. Mas eu nunca ouvi de um oceano que continuasse mais rápido ou mais devagar por conta da permissão tão graciosamente dada a ele.

Eu só estou inclinado a pensar que o oceano do Trabalho prestará pouca atenção ao conselho sem gosto que os periódicos de Dublin distribuem gratuitamente sobre a questão da representação do trabalho.

Agora que os escribas percebem que os trabalhadores estão determinados a ter sua classe representada eles estão anunciando sua aprovação da medida. Como eles não são fortes o bastante para se opor eles parecem determinados a experimentar quais elogios podem fazer para evitar que os trabalhadores entrem no Conselho animados com fortes sentimentos de classe.

Se eles estão tão convencidos do valor da representação do trabalho, quantos assentos parlamentares eles estão preparados para ceder aos candidatos do trabalho? Eh, meus amigos de fala-mansa.

Não falem todos de uma vez. Nós sabemos que vocês todos estão no Parlamento através de um grande sacrifício, e que só permanecem lá pelo bem do seu país, então a oportunidade de sair dele será uma benção perfeita para vocês. Quem cederá sua cadeira para um bona fide representante do trabalho, escolhido, digamos, pelos Sindicatos de Dublin, Waterford, Cork e Limerick respectivamente?

Esperem, não respondam. Vocês ainda estão resolutos a se sacrificar pelo bem de nosso país - nos assentos acolchoados e nos aconchegantes fumódromos do Parlamento Britânico.

Sacrífico heróico, devoção altruísta!

O Freeman's Journal, comentando o Congresso dos Sindicatos de Bristol, declara que um período se abriu no qual a guerra entre o trabalho e o capital será lutada com um espírito mais amargo e resoluto do que nunca.

Ele declara que o recente locaute de engenheiros provou a força esmagadora dos mestres quando organizados, e lamenta a derrota dos sindicatos, não, percebam, porque o Freeman's Journal simpatiza com o trabalho, mas porque, em suas próprias palavras, "eles (os sindicatos) agem como a mais efetiva de todas as defesas contra as ideias revolucionárias que encontram terreno fértil na França, Alemanha ou Itália. Seu desaparecimento não signica o fim da atividade dos trabalhadores pelos seus interesses, mas o direcionamento dela em novos e mais perigosos caminhos."

Fico agradecido ao ouvir um órgão capitalista como o Freeman tão abertamente admitir que o Socialismo é um adversário mais "perigoso" para a exploração ou roubo do trabalho do que os sindicatos. Mas o que diremos então quando o perigo (para a opressão) do sindicalismo e do socialismo combinados, como são no Continente, e como serão quando o trabalhador irlandês se livrar do medo da político nos sindicatos - um medo importado neste país pelos conservadores e vagarosos sindicatos da Grã Bretanha.

O correspondente de Londres do Freeman também nos informa que "o Congresso dos Sindicatos é presidido, pela primeira vez, por um socialista, e além disso um irlandês, Sr. James O'Grady de Bristol."

Ele então afirma - "O Sr. O'Grady é possuído pelo bom senso-comum." É claro, Sr. Correspondente, por isso é que ele é um socialista.

Observe e faça o mesmo.

E fique tranquilo que a democracia na Irlanda não está nem um pouco amendrontada com as "ideias revolucionárias", mesmo que a velha da Prince's Street esteja.

Se você grasnar em nossas orelhas sobre o "socialismo continental", gritaremos de volta "que é melhor do que o capitalismo britânico", o que será uma confortante reflexão para alegrar o coração de um

SPAILPÍN.