Empurrões Locais

James Connolly

17 de setembro de 1898


Publicação: Workers' Republic, 17 de setembro de 1898.

Republicação: Red Banner, No. 14.

Transcrição: Aindrias Ó Cathasaigh.

Tradução e HTML: Guilherme Corona.

Creative Commons BY-SA 4.0


O Concurso Hípico já passou, mas deixou sua marca. Nosso próprio Lorde Prefeito de Dublin "lembrará dele com orgulho," eu compreendo, não foi nessa ocasião que ele apertou a mão de um representante da realeza?

É claro que sim. Mas não é verdade, como circula nos rumores, que ele tenha decidido nunca mais profanar com água e sabão a mão honrada com o aperto do vice-rei. O rumor é totalmente sem fundamento.

Mas aqui está um rumor ainda mais alarmante e infelizmente verdadeiro. Se refere a um personagem da estatura do Prefeito de Cork, que também estava na Concurso Hípico.

Parece haver um grande número de Prefeitos no Concurso Hípico. Veja bem - Isto não é uma piada.

Bem, o Prefeito de Cork compareceu de tal forma que um jornal de Cork comenta da seguinte maneira: "Se um convite viesse voluntariamente da Sociedade Real de Dublin não haveria problema, mas não se pode dizer que foi digno de sua parte enviar uma solicitação a esse órgão solicitando permissão para comparecer, nem foi a apreciação pública da sua ação melhorada pela carta na qual seu secretário na manhã seguinte se apressou para informar ao público que seu senhorio foi escoltado por um destacamento da política montada... Havia muita suspeita da aspirante vice-realeza sobre todo o assunto para ser palatável."

Mas eu não estou tão satisfeito em minha própria consciência que o Prefeito de Cork deveria ser responsabilizado pela adulação servil do Lorde Prefeito, especialmente quando ele tem pecados próprios o suficiente para responder.

Aqui, por exemplo, está um relatório do Daily Herald de Cork sobre um almoço oferecido pela Companhia de Seguros de Vida de Nova Iorque, na qual compareceram o Sr. P.H. Meade (tory), Prefeito de Cork; o Sr. Maurice Healy (parlamentar); Alderman Fitzgerald, e alguns outros poucos patriotas do mesmo tipo peculiar. O primeiro brinde oferecido por estes engolidores de fogo foi para "Sua Mais Graciosa Majestade a Rainha." Viva a '98.

Um parágrafo para os jornais de esporte. Eu ouvi dizer que o Prefeito de Cork desafiou o Lorde Prefeito de Dublin para uma disputa pelo campeonato de Puxa-Saquismo Irlandês. As apostas estão empatadas.

"Enquanto a lamparina continua a queimar, mesmo um Prefeito pode retornar."

Em algum lugar eu escutei essa linda consideração, e agora eu, com minha habitual generosidade, ofereço grauitamente para o Sr. P.H. Heade, Prefeito de Cork, e como uma ajuda para um melhor cenário mental eu desejo citar para ele a seguinte linda consideração que também penso necessária.

"Ele (Brian Dillon) era um homem que tinha a coragem das suas convicções." Sem brinde realista para ele, Sr. Heade, eh. "Ele via no seu tempo a agitação parlamentar como uma farsa," assim como agora, Ó Prefeito de Cork. A agitação parlamentar é uma farsa, e os parlamentares comediantes baixos. "Aquela enorme manifestação ao lado do monumento erguido à memória de Brian Dillon mostrou que em Cork as memórias dos homens de '67 e seus princípios eram reverenciados e apreciados" (e aquele brinde?) "e se a ocasião surgir os homens de Cork que admiravam o exemplo nobre e altruísta de Brian Dillon mostrarão ao mundo que a nacionalidade irlandesa não está morta e nunca será conquistada."(1)

Esses são meus sentimentos, Paddy Meade, quase. Você reconhece o discurso, sem dúvida. Foi feito por um homem a quem você muito admira, a ver, você mesmo.

Mas qual é o significado daquela curiosa frase, "se a ocasião surgir"? Qual ocasião? Se por 'ocasião' se quer dizer a necessidade de lutar pela liberdade, ela está aqui agora.

Nós ainda somos escravos, nacionalmente e socialmente; e a ocasião está presente hoje e sempre, sempre que houver homens o suficiente para se levantar por ela. Mas a atmosfera de um país maduro para a ação revolucionária seria fatal para aquele tipo peculiar de patriotismo prefeitoral que não pode resistir a sedução de qualquer convite para beber - mesmo quando o brinde oferecido é desonroso.

Aqui me permita gastar um pouco do meu latim. Segure a respiração. Facilis descensus Averni. A descida para o inferno é fácil.

É só um pequeno passo de pregar pela 'união de todas as classes' para se curvar para a realeza - e chutar o trabalhador.

O Prefeito de Cork iniciou sua decadência. Depois das festividades aludirem o ocorrido, um não se alerta ao ler que na discussão da Corporação de Cork, ele deu seu voto contra a proposta de sessões noturnas daquele órgão e portanto, no que lhe concerne, contra a representação do trabalho.

Os comerciários de Cork, reconhecendo que o 'direito' a sentar na Corporação é uma mera farsa se a 'oportunidade' lhes é negada, buscaram mudar o horário de trabalho da Corporação do meio-dia para à tarde, para que eles pudessem comparecer após o trabalho.

A votação na proposta foi igualmente dividida, e o 'inflexível' Prefeito declarou seu voto contra os trabalhadores.

Portanto o governo Tory deu aos trabalhadores da Irlanda um direito cujo os conselheiros autogovernistas lhes negam a oportunidade de exercer.

Este é o patriotismo de classe-média.

O que farão os trabalhadores de Cork? Se sentar em silêncio. Eu espero que não. Eu espero ver os trabalhadores de Cork ensinando uma lição muito merecida a alguns dos cavalheiros que agiram contra eles na Corporação de Cork. Que se torne um princípio reconhecido na política que qualquer homem agindo contra os trabalhadores em qualquer questão pública nunca mais receberá o voto do trabalhador, nem ser tolerado em qualquer organização na qual os trabalhadores possam influenciar, e a política não será mais o jogo de bobos que é hoje.

Nesta conexão foi interessante e instrutivo observar como a Constituição de Cork (jornal campeão da aristocracia laranja e realismo Britânico Ocidental em geral) se apressou a defender o Prefeito autogovernista dos ataques dos trabalhadores de Cork. Esses homens veem onde está seu interesse de classe, e eles não são enganados pelas enganações políticas de hoje.

Enquanto na questão da política municipal, não posso deixar de expressar meu profundo pesar pela ação estúpida do Conselho Sindical de Dublin sobre o assunto da Prefeitura.

Na minha visão a proposta de colocar um Tory nesta cadeira é indefensável e estúpida. Com exceção da oposição criminosa de nossos conselheiros autogovernistas a toda proposta calculada para o benefício da classe trabalhadora, é o ato público menos defensável dos últimos anos.

O conservadorismo tory representa a mais insultante forma de privilégio, nacional e social. O homem que prega a tolerância com o conservadorismo tory é ou um covarde ou um idiota. O conservadorismo tory não deve ser tolerado mas extirpado, expulso da vida pública onde for possível.

Nossos líderes autogovernistas agora fingem grande indignação sobre o ato do Conselho Sindical em coquetear com o conservadorismo tory, mas eles mesmos que dão o mal exemplo.

Eles queriam uma 'união das classes', e vejam, aqui está. Representantes dos sindicatos propondo eleger um representante da classe endinheirada e aristocrática como Lorde Prefeito; uma verdadeira "união das classes". Pronto, o truque está feito.

Uma plataforma ampla, meus amigos - a única coisa necessária para a política irlandesa. Como lhe parece?

O Conselho Sindical diz que está cansado da enganação da política. Bom, eu também estou. Mas quando estou cansado do jogo eu não descanso participando dele. Eu saio dele.

Não somos desprovidos de escolha entre um Autogovernista e um Unionista - o diabo e o profundo mar azul.

Qual é o diabo e qual é o mar profundo eu não pretendo dizer. Você paga para ver e você toma sua decisão.

Há outra alternativa. Muitas outras na verdade. O partido Socialista Republicano a que pertenço busca colocar em toda posição oficial em posse dos irlandeses um representante jurado para usar a influência daquela posição de forma a fustigar o ódio do povo pelos nossos governantes atuais.

O Conselho Sindical não pode encontrar em Dublin um republicano comprometido e um trabalhador com consciência de classe, e lançá-lo para a prefeitura.

Um dos seus próprios membros seria perfeito para isso, sim, e mil vezes mais confiável do que M'Coy ou Tallon.

Que eles lancem candidados no entendimento que eles apoiam um trabalhador republicano para a prefeitura, que eles façam todo outro candidato na cidade fazer um juramento similar, ou então se abster ou votar contra ele caso ele recuse, e quando a eleição acabar que todos os candidatos eleitos do que eu chamaria o partido anti-tory se reunam e decidam quem eles apoiarão para a função.

Isso, penso, é praticável. Em todos os casos seria melhor do que votar em um inimigo declarado da liberdade do seu país e da sua classe.

Mas o atual curso de ação tomado pelos Sindicatos só está fortalecendo a facção autogovernista, e lhes dando a desculpa necessária para se opor aos candidatos do trabalho. Uma desculpa que eles já estão agarrando com um alegre entusiasmo.

Em um encontro recente da Liga Independente(2), o Sr. William Field (parlamentar) declarou que aquele órgão estava disposto a debater a questão da sabedoria das suas táticas com qualquer outro órgão na Irlanda.

Mas ele omitiu quais eram essas táticas. E como ninguém fora da Liga tem ideia dela, e como a imprensa parnelita cuidadosamente suprimiu aquela parte do discurso do Sr. Field, parece que o desafio é apenas um blefe.

O Sr. Field é, acredito, um homem completamente honesto, mas também acredito que ele está sendo usado por homens dos quais não se pode dizer o mesmo.

Ele deveria lembrar que há um ano, quando a Liga Independente foi lançada, foi triunfantemente declarado que o 'Autogovernismo' deveria ser jogado fora e que a Recusa ou o Parlamento de Grattan colocado em seu lugar.(3) O Sr. Field (parlamentar) e o Sr. Redmond e todos os seus seguidores se juntaram para desacreditar o autogovernismo e clamar pela Recusa.

Agora os mesmos homens estão clamando pelo autogoverno, e a Recusa nunca é mencionada.

Essa é a tática. A tática de um porco indo para Cork pelo caminho de Garryowen.

Spailpín