Regicídio e Revolução

James Connolly

17 de setembro de 1898


Publicação: Workers' Republic, 17 de setembro de 1898.

Republicação: Red Banner, No. 14.

Transcrição: Aindrias Ó Cathasaigh.

Tradução e HTML: Guilherme Corona.

Creative Commons BY-SA 4.0


Como a maioria dos nossos leitores já estão cientes, a Imperatriz da Áustria foi assassinada nas ruas de Genebra, Suíça, no último sábado.

Nós lamentamos profundamente a inoportuna morte desta dama, assim como lamentaríamos a morte inoportuna de qualquer outra mulher inocente, mas não podemos ver qualquer razão para a histeria que nossos jornais diários estão entando incutir nos leitores sobre o assunto. Uma mulher foi horrivelmente assassinada. Colocado assim simplesmente o fato já causaria em todos os homens pensantes um horror justo ao acontecimento. Mas quando são empilhadas colunas em cima de colunas, quando somos ditos que "a humanidade está chocada," que o crime é "sem precedentes," que o "mundo está afogado em luto," etc., nós começamos a suspeitar da presença de mais hipocrisia do que sinceridade em todo este luto jornalístico. Quando marinheiros são perdidos em navios apodrecidos no mar, mineiros sufocados nas minas, trabalhadores mortos pelo maquinário defeituoso, mulheres e garotas envenenadas em fábricas de fósforos, etc., nossos amigos na imprensa capitalista não derramam tantas lágrimas ou devotam muitas colunas ao assunto. Portanto concluímos que essas lágrimas jornalísticas são derramadas pela Imperatriz e não pela mulher.

De nossa parte vemos toda vida humana como igualmente sagrada, seja a vida de uma Imperatiz ou de uma faxineira, e não temos vontade de emular nossos contemporâneos na sua tentativa de magnificar o horror de um crime porque a vítima pertencia a um status de vida e não ao outro. O feito foi o de um homem louco, seu perpretador deve ser punido, em toda probabilidade com a maior severidade que a lei da Suíça permitir. Mesmo que tívessemos o poder para, certamente não levantaríamos um dedo para salvá-lo ou para modificar sua punição, qualquer que ela seja, mas não podemos ver nada no caso que justifique o surto de selvageria cujo nossos jornais diários e noturnos de Dublin estão agora apresentando aos leitores. Quando vemos jornais 'respeitáveis' lamentando que as bárbaras torturas da Idade Média não são mais possíveis, se deliciando em medonhos e repugnantes recitais de crueldades malévolas perpretadas em nome da Lei contra regicidas no passado, e abertamente desejando que elas fossem revividas, sentimos que mesmo o medo de ser mal-interpretados não justificaria nos manter em silêncio, continuar evitando exprimir um protesto contra esta explosão de ferocidade naqueles que gostam tanto de posar como guardiões da moralidade pública. A velha lei mosaica pedia uma vida por uma vida, mas nossos jornais oráculos, que em tempos ordinários adoram proclamar sua devoção à nova dispensa que substituiu a justiça firme do código mosaico pela ética mais piedosa do cristanismo, agora superariam aquele código na ferocidade da sua vingança. Uma vida por uma vida, parece, pode servir como base da justiça entre mortais ordinários, mas a vida de uma cabeça coroada deve ser paga com terrores maiores, ou então as massas do povo desesperado e faminto que a sociedade cria em nosso meio não podem ser subjugadas. Aqui, então, encontramos a verdadeira razão do apelo. As classes governantes buscam através da Imprensa, plataforma, e qualquer outro meio, impressionar a opinião pública com a divindade das suas personalidades, a 'divindade' que provém da sua posição. Cem mulheres trabalhadoras são assassinadas nas ruas de Milão - mortas a tiro e baioneta com seus bebês famintos no colo(1); a sociedade cede um parágrafo nos seus jornais para noticiar o fato; uma Imperatriz é esfaqueada nas ruas de Genebra, e ó! A Humanidade está Chocada. Ainda, talvez, a mão implacável mão da história reverterá o procedimento: dar àquele holocausto das trabalhadoras um capítulo dedicado como mártires da humanidade - e desconsiderar o assassinato da Imperatriz com a brevidade de uma nota de rodapé. Quando progredimos a um reconhecimento devido da dignidade da humanidade perdemos o respeito inculcado pela glória sem valor de uma coroa. A democracia é sempre piedosa e humana. O crime de um Luccessi não é de nenhuma forma atribuível ao partido revolucionário na Europa, não mais do que os assassinatos do Phoenix Park foram justamente atribuíveis ao partido nacionalista na Irlanda.(2) As paixões criminais que brilharam em Genebra no último sábado são nutridas e florescem somente nas sombras escuras criadas pela sociedade capitalista e seus governantes financeiros e hereditários. A atual ordem social e política na Europa gera tais criminosos. Eles são seus filhos. Que eles lidem uns com os outros.

Nós, que detestamos igualmente o criminoso e a ordem social que o cria, trabalhamos incessantemente pelo dia vindouro em que um povo iluminado, ao abolir o último, tornará o primeiro impossível.