Um dos sinais mais significativos dos nossos tempos é a velocidade com que nossa decadente classe-média aderiu a propostas de propriedade e controle estatal ou municipal, para socorrê-la da pressão econômica sob a qual está sucumbindo. Então vemos na Inglaterra demandas de nacionalização do sistema telefônico, pela extensão da empresa municipal no uso da eletricidade, pela extenção do sistema de parcelas no Correio, pela nacionalização das ferrovias e canais. Na Irlanda temos nossos reformistas de classe-média demandando ajuda estatal na agricultura, compra estatal de terras, drenagem arterial, construção de docas, píeres e portos pelo Estado, ajuda estatal para a indústria pesqueira, controle statal das relações entre o posseiro agrícola e o proprietário, e também a nacionalização das ferrovias e canais. Há uma certa seção dos socialistas, principalmente na Irlanda, que nunca cansa de proclamar todas essas demandas de atividade estatal como um sinal do crescimento do espírito socialista entre a classe-média, e portanto merecedoras de todo o apoio que a democracia da classe trabalhadora possa dar. Em certa medida tal visão parece justificável. O fato de que grandes seções da classe capitalista se unem na demanda da intervenção do Estado na indústria é um sinal inequívoco que eles, pelo menos, perderam a crença arrogante na auto-suficiência da empresa privada que caracterizava sua classe uma geração atrás; e que eles foram forçados a reconhecer o fato de que há uma multitude de coisas nas quais a "inteligência", "auto-confiança", e "responsabilidade pessoal" do capitalista são totalmente desnecessárias. Argumentar que, já que nestas empresas o proprietário privado é dispensado, portanto ele pode ser dispensado de todas as outras formas de atividade industrial, é lógico o suficiente e falhamos em ver de que maneira os advogados da sociedade capitalista podem continuar a clamar pela propriedade estatal como citado - propriedade na qual o capitalista privado é visto como supérfluo, e ainda continuar a argumentar que em todas as outras formas de indústria o capitalista privado é indispensável. Para isso deve ser lembrado que cada função de caráter útil feita pelo Estado ou Município hoje foi um dia feita por indivíduos privados por lucro, e em conformidade com a então geralmente aceita crença de que não poderia ser satisfatoriamete feita exceto por indivíduos privados.
Mas apesar de tudo isso, apontaríamos, sem querer ser chatos ou incovenientes, que chamar tais demandas de "socialistas" é extremamente enganador. O socialismo propriamente dito implica acima de tudo o controle cooperativo pelos trabalhadores do maquinário de produção; sem este controle cooperativo a propriedade pública pelo Estado não é socialismo - é somente capitalismo de Estado. As demandas dos reformistas de classe-média, incluindo a Liga pela Reforma das Ferrovias, são simples planos para facilitar as transações de negócio da classe capitalista. Telefonia estatal - para baratear mensagens no interesse da classe-média que é o principal usuário do sistema telefônico; ferrovias estatais - para baratear o transporte de mercadorias no interesse do comerciante de classe-média; construção de píeres, docas, etc. - no interesse do negociante de classe-média; na verdade cada proposta apresentada até agora na qual a ajuda do Estado é invocada é uma proposta para facilitar a vida do capitalista - comerciante, industrial, ou fazendeiro. Se elas tivessem prontas amanhã a mudança não necessariamente beneficiaria a classe trabalhadora; ainda teríamos nas nossas indústrias estatais, como no Correio hoje, a mesma classificação injusta de salários, o mesmo governo despótico de um diretor irresponsável. Aqueles que trabalharam mais e mais duro ainda receberiam a pior remuneração, e o operário ainda seria impedido de participar na organização da sua indústria, da mesma forma que em todas as empresas privadas.
Então, repetimos, a propriedade e controle estatais não são necessariamente socialismo - se fossem, então o Exército, a Marinha, a Polícia, o Judiciário, a Carceragem, a Inteligência, os Carrascos, seriam todos funcionários socialistas, como são oficiais de Estado - mas a propriedade do Estado de toda a terra e materiais de trabalho, combinada com o controle cooperativo dos trabalhadores dessa terra e materiais, seria socialismo.
Propostas de propriedade estatal ou municipal, se desacompanhadas deste princípio cooperativo, são só propostas para aperfeiçoar o mecanismo do governo capitalista - propostas para fazer o regime capitalista respeitável e eficiente para objetivos do capitalista; em segundo lugar elas representam o instinto de classe do homem de negócios que sente que o capitalista não deveria atacar outros capitalistas, enquanto todos podem se unir para atacar os trabalhadores. Os principais prejudicados imediatos da propriedade privada de ferrovias, canais e telefones são os comerciantes de classe-média, e seu resentimento das tarifas impostas é apenas a expressão política capitalista do velho adágio que "cachorro não deve comer cachorro."
Parecerá então que um imenso mar separa as propostas de "nacionalização" da classe-média das demandas de "socialização" da classe trabalhadora revolucionária. A primeira propõe dotar um Estado de Classe - repositório do poder político da Classe Capitalista - com certos poderes e funções para ser administrado no interesse comum da classe possuidora; a segunda propõe subverter o Estado de Classe e substituí-lo por um Estado Socialista, representando a sociedade organizada - a República Socialista. Aos gritos dos reformistas de classe-média, "faça isso ou aquilo propriedade do governo," respondemos, "sim, na medida em que os trabalhadores estão prontos para fazer do governo sua propriedade."