Um Apelo pelas Crianças

James Connolly

02 de dezembro de 1899


Primeira edição: Workers' Republic, 02 de dezembro de 1899.

Fonte: Red Banner, n. 2.

Transcrição: Aindrias Ó Cathasaigh.

Tradução e HTML: Guilherme Corona.

Creative Commons BY-SA 4.0


Nos perguntamos quantos dos nossos leitores realmente apreciaram o significado daquele ponto em nosso programa municipal(1) que demanda a manutenção gratuita das crianças na Escola. Em nenhum item do programa Socialista os aspectos econômicos e humanitários do movimento estão tão bem combinados, e nenhum é tão necessário no interesse das futuras gerações. Pela miséria e opressão sob as quais os adultos desta geração sofrem, eles próprios têm culpa porque grande parte dela é imediatamente removível, e toda ela poderia ser abolida pelo esforço combinado por parte das suas vítimas. Mas as crianças que mais sofrem por conta deste sistema social desumano; que são impedidas de crescer, fisicamente e intelectualmente; que são colocadas, em sua maioria, em barracos que sempre tendem a se tornar verdadeiras fontes de crime e degradação; que são interditadas, pela pobreza dos seus pais, de qualquer caminho para o conhecimento, e que veem todas as suas vidas retorcidas e distorcidas pelas más condições da sua infância; seu direito à consideração é superior a todas as exigências políticas, e deve ser empunhado com toda a energia que possuímos.

Pode ser colocado contra tal demanda que ela introduz o poder público da comunidade em uma esfera da qual ele deve ser excluído - a casa. Mas este é um argumento que não pode ser seriamente tratado quando consideramos os muitos e variados efeitos na vida privada que o poder do Estado já teve, e nos quais tal intervenção pública se provou benéfica no mais alto grau. O indivíduo não pode mais usar sua propriedade como ele deseja, mesmo quando essa propriedade é uma coisa inanimada, mas quando a propriedade toma a forma de seres humanos, como crianças, os "direitos" do indivíduo são circunscritos e limitados da maneira mais diligente. E que homem são hoje arriscaria dizer que os direitos dos pais de fazer o que quiserem com suas crianças - um direito que demasiado frequentemente tomou a forma de maus tratos brutais e inanição sistemática - era mais compatível com o bem-estar público, ou com a moralidade privada, do que a supervisão executada pelo Estado no presente. E se o direito do indivíduo de maltratar suas crianças foi suprimido no interesse dessas crianças, não deveriam os maus tratos sociais das crianças que resultam da pobreza forçada dos seus pais também serem suprimidos? Se é correto que os pais não deveriam poder sentenciar suas crianças a castigos corporais de caráter severo, ou de limitar seu suprimento de comida abaixo do que é necessário para sua subsistência, não é também certo que a Sociedade que, pela sua organização econômica falha, sentencia os próprios pais a uma vida de trabalho penoso e mal-remunerado, deveria usar seu poder para prover às crianças dos pobres que ela criou com bens de vida necessários suficientes para permitir seu desenvolvimento apropriado em homens e mulheres capazes e respeitosos? É dito que isso encorajaria bêbados e vagabundos a negligenciar suas crianças. Mas as crianças de tais pessoas são negligenciadas agora, e a manutenção das suas crianças pelo fundo público não aumentaria tal negligencia, só salvaria os pequenos indefesos das consequências. Por que as crianças devem sofrer, mesmo se os pais forem criminosos e indolentes?

A Sociedade tem um dever com essas crianças - eles são os cidadãos do futuro; se sua infância for feliz e saudável, e portanto realmente suscetível a receber educação, também tenderão a serem assim quando homens e mulheres. Portanto, repetimos, a Manutenção Gratuita das Crianças é o item mais importante pelo qual lutar, e buscamos ver a classe trabalhadora revolucionária fazendo esta demanda um elemento de destaque na sua futura agitação - resolvida que a sociedade capitalista, que nos privou de comida e nos impediu de crescer, que nos desmoraliza e explora quando adultos, deve, pelo menos, ser obrigada a tirar suas garras das vidas das nossas crianças e deixar a geração vindoura fisicamente e mentalmente capaz de completar a tarefa gloriosa de reconstrução social que agora lhe aguarda.